Ensaio "Afogado: a comida e os mistérios do Divino"

O ambiente é onírico. A fumaça da fervura da água que cozinha as batatas e o feijão evoca o mistério do Espírito Santo, que está sendo celebrado nesta festa. Há que ter fé para crer em Sua existência. Há que ver o que aparentemente não  está ali. Há que sentir a Sua presença mais do que ter provas dela.

Na Festa do Divino, uma das mais tradicionais celebrações da igreja católica no Brasil, a comida é uma das grandes tradições, juntamente com as procissões, cavalhadas e danças folclóricas de origem afro.

Desde sua origem, nas festas pagãs de Pentecostes (que celebravam a chegada da primavera no hemisfério norte), a Festa do Divino é marcada pela fartura de comida, que representa a esperança na chegada de uma nova era, com igualdade, prosperidade e abundância para todos.

No Brasil, a festa do Divino acontece em muitos municípios, em cada um deles, com ênfase em algo especial. Em São Luiz do Paraitinga, no interior de SP, uma das mais importantes tradições é a de reunir a comunidade em torno da comida sagrada, o Afogado que é servido gratuitamente a cerca de 20.000 pessoas em um período de 9 dias.

O alimento distribuído aos fieis é considerado uma ação de reciprocidade pelas graças concedidas pelo Divino Espírito Santo aos voluntários que trabalham no seu preparo, mas ele alimenta mais do que seus estômagos, alimenta suas almas. Aproxima-os de Deus e uns dos outros. Nutre.

O espaço do mercado municipal, onde geralmente são vendidos alimentos, transforma-se em um local de doação. Nove dias de fartura, de providência, de realização. A fé no Espírito Santo é o que move as pessoas, mas o combustível para tudo isso é a parceria, a união de esforços e a fraternidade entre as pessoas. A providencia divina é transferida para as pessoas comuns. O cuidado de Deus é representado pelos cuidados entre os membros da comunidade. O amor de Deus está nos alimentos que acalentam.

Diz a história católica que línguas de fogo baixaram sobre os apóstolos para comprovar a presença de Deus por meio do Espírito Santo. Da mesma maneira, línguas de fogo aquecem os caldeirões de comida, os corpos e os corações dos voluntários. A fumaça do cozimento dos alimentos nubla o ambiente, turva a visão, mas une as pessoas em torno de um objetivo muito claro: comprovar que  a solidariedade pregada por Deus está presente entre as pessoas daquela comunidade.

A multidão é paciente. Aguarda a chegada da sua vez de receber o alimento divino com alegria. Os voluntários são dedicados. Trabalham incessantemente. Recebem a gratidão dos seus conterrâneos e a certeza de que estão homenageando seu Senhor na pessoa do Espírito Santo.

O sentimento de comunidade, de assistência, de nutrição do corpo e da alma vai acompanhar a todos por mais um ano, até a chegada da próxima festa.

São Paulo - Brasil